Muito antes da primeira dose ou do primeiro baseado, já existia em mim uma sensação de não pertencer. Eu era um menino criado no interior, por uma mãe solteira, com um pai ausente. E desde cedo carreguei a impressão de estar sempre um pouco fora do lugar.
Cresci olhando para os outros como quem olha por uma janela. Tinha afeto, tinha a minha avó Carmélia, tinha brincadeira. Mas tinha também um vazio difícil de nomear: o sentimento de que faltava um chão, um nome, um reino.
Eu me via como um príncipe sem reino, brincando em terras que pareciam não me pertencer.
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A ferida que veio antes da droga
Hoje eu entendo que essa ferida de pertencimento foi o terreno onde, anos depois, a dependência encontrou espaço. A droga não criou o vazio — ela prometeu preencher um vazio que já existia.
Não conto isso para culpar ninguém. Conto porque entender a origem me ajudou a parar de me odiar e começar a me cuidar.
A busca por aceitação raramente começa no vício. Ela costuma começar muito antes, na infância e na sensação de não pertencer. Olhar para a origem não é desculpa — é o primeiro passo do autoconhecimento.
O que fazer agora
- Reconheça que a sua dor tem história — ela não começou na droga.
- Procure um profissional para olhar essas feridas com cuidado, não sozinho.
- Fale sobre o que sente com alguém de confiança. O silêncio alimenta o vazio.
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