Silhueta caminhando rumo ao nascer do sol: uma história de recuperação
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Minha história: 22 anos no vício e o caminho da recuperação

Por 22 anos, vivi uma vida dupla: empresário de sucesso por fora, adicto em colapso por dentro. Um grave acidente revelou a verdade e me colocou no caminho diário da recuperação, que começou em 21/09/2022. Esta é a história por trás do Vida Sem Vício.

por Flavinho Luizetto · Vida Sem Vício

Eu me chamo Flavinho Luizetto, e por mais de duas décadas, a minha vida foi uma fachada bem-sucedida. Por fora, eu era o Flávio, um empresário do mercado digital que construiu uma das primeiras e mais premiadas agências do país, com dezenas de funcionários e um faturamento milionário. Eu dava palestras, fechava grandes contratos e aparecia em matérias como um especialista. Por dentro, porém, eu estava em colapso, afundando em uma dependência de álcool e drogas que durou 22 anos. Esta não é uma história de heroísmo, nem de uma vitória final sobre o vício. É a história de uma queda longa e silenciosa, de um acidente que tornou visível a destruição que já acontecia por dentro, e de um recomeço que acontece todos os dias, um dia de cada vez. Meu ponto de partida para uma vida nova tem data: 21 de setembro de 2022, o dia em que me internei. E eu compartilho esses pedaços de mim não para falar de mim, mas porque talvez, em algum ponto, você se reconheça nela e perceba que não precisa continuar sozinho. O sucesso que escondia o colapso Tudo começou em 1999, na sala de um apartamento, com uma pequena empresa de ranqueamento no Google. Naquela época, o uso de álcool e drogas era social, uma ou duas vezes por mês. Mas conforme o sucesso profissional crescia de forma vertiginosa, a adicção o acompanhava. Em 2002, com um site que alcançava 5 milhões de acessos diários, o uso já era semanal. Em 2008, no auge, com contratos com as maiores agências de publicidade do país, eu já usava de duas a quatro vezes por dia, todos os dias. Eu era o que chamam de adicto funcional, uma condição que aprofundo no texto sobre como a `Dependência química e mentira: por que a vida dupla começa?`. Minha competência no trabalho era a cortina de fumaça perfeita para esconder o caos que me consumia. O especialista e o adicto Chegou um ponto em que eu vivia duas pessoas. Havia o “Flávio Luizetto” dos contratos e das reuniões, o nome no cartão de visitas, o profissional que comandava uma operação de 3,6 milhões de reais por mês. E havia o Flavinho, o homem real, que precisava de substâncias para acordar, para trabalhar, para dormir. O auge da minha carreira foi também o fundo do meu poço químico. Eu ganhava prêmios de melhor agência de SEO do Brasil e, ao mesmo tempo, minha vida se resumia a usar “enquanto tivesse”. Essa fratura de identidade é algo complexo, e eu falo mais sobre ela no artigo `Flávio e Flavinho: quando o nome profissional encontra o homem real`. O dia em que a vida virou do avesso Em 7 de dezembro de 2019, a fachada ruiu de forma literal e violenta. Dirigindo na Rodovia Raposo Tavares, perdi o controle do carro. Ele capotou seis vezes por 150 metros, bateu de frente em uma parede de concreto e parou de ponta-cabeça. O resultado físico, após uma tentativa de salvar meu braço, foi a amputação. Aquele evento não foi a causa do meu problema, mas a sua consequência mais brutal e visível. Foi o momento em que a minha falta de governo sobre mim mesmo se materializou em destroços de metal e em um corpo permanentemente alterado, uma história que detalho em `O acidente que revelou uma vida fora de controle`. A entrega e o marco zero O acidente não me curou. O que se seguiu foram anos de uma sobriedade frágil, marcada por recaídas e pela tentativa de me reerguer sozinho. Voltei a trabalhar menos de um mês depois, não como sinal de força, mas como negação, tentando provar que a minha capacidade de construir ainda estava ali. Foi um período de muita dor, de recomeços frustrados. Em 2022, exausto, eu finalmente me rendi. Entreguei minha vida a Jesus Cristo, não como um ato de mágica, mas como um passo de humildade, e busquei ajuda especializada. A internação, em 21 de setembro, não foi o fim da luta, mas o começo da minha rendição honesta e o marco zero de uma nova jornada, onde a fé se tornou um pilar, algo que exploro em `Fé e recuperação: como a espiritualidade pode ajudar`. O que fazer agora Se você se vê em alguma parte da minha história, o primeiro passo pode ser o mais simples e o mais difícil: admitir para si mesmo que precisa de ajuda. Não há vergonha nisso; a verdadeira força está em reconhecer nossa própria impotência. Converse com alguém de confiança, um amigo, um familiar, um líder espiritual. Procure um grupo de apoio, como Narcóticos Anônimos ou Alcoólicos Anônimos. Considere a ajuda de um terapeuta ou de um médico psiquiatra. O importante é quebrar o silêncio. A adicção se alimenta do segredo e do isolamento. O que evitar Na minha jornada, aprendi que certas atitudes só nos afundam mais. Evite, acima de tudo, o isolamento. Não tente fazer uma desintoxicação por conta própria, sem acompanhamento médico; pode ser extremamente perigoso. Evite a armadilha do “só mais uma vez”, a ilusão de que você pode controlar o uso. E, por favor, não se compare com os outros. Cada processo de recuperação é único. O foco deve ser no seu próximo passo, não na distância que ainda falta percorrer. Quando buscar ajuda Os sinais de que a situação está fora de controle costumam ser claros, ainda que a gente tente negá-los. Busque ajuda quando o uso de substâncias começa a afetar negativamente seus relacionamentos, seu trabalho, suas finanças ou sua saúde. Quando você se pega mentindo ou escondendo seu comportamento. Quando percebe que a maior parte do seu tempo e energia é gasta pensando em usar, conseguindo a substância ou se recuperando dos seus efeitos. Se você já tentou parar sozinho e não conseguiu, esse é um sinal claro de que precisa de um suporte maior. Não espere o fundo do poço chegar. Uma vida só por hoje Hoje, mais de mil dias depois daquela internação, eu sigo em recuperação. A palavra “cura” não faz parte do meu vocabulário, porque o trabalho é diário. A cada manhã, renovo meu compromisso de ficar limpo e sóbrio, só por hoje. Voltei a empreender, reconstruí meus laços familiares e encontrei um novo propósito em ajudar outros que passam pelo que eu passei, seja coordenando reuniões de apoio ou através deste portal. A pergunta que muitos se fazem é: `Existe vida depois do vício?`. Minha resposta, vivida na prática, é um retumbante sim. É uma vida diferente, mais honesta e, para mim, infinitamente mais plena. Como descrevo no artigo `Mais de mil dias depois: a recuperação como vida nova`, não se trata de voltar a ser quem eu era, mas de me tornar quem eu posso ser, um dia de cada vez. Leia também O acidente que revelou uma vida fora de controle Mais de mil dias depois: a recuperação como vida nova Flávio e Flavinho: quando o nome profissional encontra o homem real Fé e recuperação: como a espiritualidade pode ajudar Dependência química e mentira: por que a vida dupla começa? Existe vida depois do vício? Continue navegando pelos conteúdos do portal. Há muitos caminhos de apoio, e você não precisa mais caminhar sozinho.

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Perguntas frequentes

O que é um 'adicto funcional'?

Um adicto funcional é alguém que, apesar da dependência química severa, consegue manter aparências de normalidade e sucesso em áreas como trabalho e vida social. Essa funcionalidade externa muitas vezes mascara o colapso interno e atrasa a busca por ajuda.

O acidente de carro foi o único motivo para você buscar ajuda?

Não. O acidente foi um catalisador brutal que tornou a destruição visível, mas a decisão de buscar ajuda veio quase três anos depois, após várias recaídas e a percepção de que eu não conseguiria me recuperar sozinho. A verdadeira virada foi a rendição e a aceitação da necessidade de tratamento.

O que significa 'recuperação como prática diária'?

Significa que a recuperação não é um evento com um ponto final, mas um compromisso renovado a cada dia. É a filosofia do 'só por hoje', onde o foco está em se manter sóbrio e em crescimento nas próximas 24 horas, em vez de se preocupar com o resto da vida.

Por que a data da sua internação (21/09/2022) é tão importante?

Essa data é meu 'marco zero'. Não é o fim da história, mas o começo de uma vida nova e consciente. É o dia em que parei de lutar sozinho e aceitei ajuda especializada, iniciando honestamente o meu processo de recuperação.

Como a fé ajudou na sua recuperação?

Para mim, a fé cristã foi um pilar fundamental. Ela me deu um eixo de reconstrução baseado na humildade, na entrega e na esperança. Não se trata de uma solução mágica, mas de uma força espiritual que me sustenta na prática diária da recuperação e me dá um novo propósito.

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